Nova categoria de “autismo profundo” reacende debate sobre políticas de apoio

26/02/2026


Estudo aponta que 24% das crianças avaliadas podem se enquadrar ou estar em risco de atender aos critérios


Uma proposta recente apresentada por especialistas internacionais sugere a criação da categoria "autismo profundo" para descrever pessoas autistas com necessidades de apoio mais intensas. A medida tem potencial para influenciar diagnósticos, planejamento de serviços e políticas públicas.

A definição foi discutida por um grupo reunido pela revista médica The Lancet e descreve pessoas autistas com pouca ou nenhuma linguagem (falada, escrita, por sinais ou por meio de dispositivos de comunicação), QI inferior a 50 e necessidade de supervisão e apoio 24 horas por dia. O enquadramento seria aplicado a partir dos oito anos de idade, fase em que as habilidades cognitivas e de comunicação tendem a estar mais consolidadas.

Estudo analisa impacto da nova definição

Uma pesquisa australiana avaliou como a categoria poderia impactar diagnósticos já realizados. O estudo utilizou dados de 513 crianças autistas atendidas entre 2019 e 2024 em serviços públicos de avaliação para condições do neurodesenvolvimento.

Os pesquisadores buscaram responder duas questões principais: quantas crianças atendiam aos critérios para autismo profundo e se havia características comportamentais que distinguiam esse grupo.

Como 91% das crianças avaliadas tinham menos de oito anos, os autores optaram por classificá-las como estando "em risco de autismo profundo". Os resultados indicaram que 24% das crianças autistas atendiam ou estavam sob risco de atender aos critérios da nova categoria — proporção semelhante à observada em estudos internacionais.

Entre os comportamentos analisados, 49,6% das crianças nesse grupo apresentavam situações de risco à segurança, como tentativa de fuga dos cuidadores, em comparação com 31,2% das demais crianças autistas. Além disso, 22,5% do total de crianças se automutilavam e 38,2% apresentavam comportamentos agressivos.

Debate envolve inclusão, financiamento e critérios de apoio

A proposta tem como objetivo auxiliar governos e prestadores de serviço a planejar melhor o suporte às pessoas com maiores necessidades, além de ampliar sua representação em pesquisas científicas.

Por outro lado, críticos apontam que a criação da categoria pode gerar efeitos indesejados. Há receio de que pessoas autistas que não se enquadrem nos critérios passem a ser vistas como menos necessitadas, o que poderia impactar o acesso a serviços e recursos financeiros. Também há questionamentos sobre o foco excessivo nos desafios, em detrimento das capacidades individuais.

O estudo identificou ainda que a definição de "autismo profundo" nem sempre coincide com os níveis oficiais de suporte adotados pelo NDIS (National Disability Insurance Scheme), programa australiano de financiamento e apoio a pessoas com deficiência. Cerca de 8% das crianças em risco de autismo profundo foram classificadas como nível 2 de apoio, enquanto 17% das classificadas como nível 3 não atendiam aos critérios da nova categoria.

Idade mínima e possíveis impactos práticos

Um dos principais pontos de atenção levantados pelos pesquisadores é o limite mínimo de oito anos para aplicação do termo. Como a maioria das crianças recebe diagnóstico antes dessa idade — a média no sistema público australiano é de 6,6 anos — a adoção formal da categoria poderia exigir reavaliações futuras, aumentando a demanda sobre serviços já sobrecarregados.

Os autores destacam que eventuais adaptações seriam necessárias caso o critério passe a orientar decisões de financiamento, já que ele não se encaixa perfeitamente nos atuais níveis de suporte.

Apesar das ressalvas, o estudo aponta que a categoria pode oferecer uma forma mais objetiva de descrever necessidades muito elevadas de apoio. Para os pesquisadores, o termo "autismo profundo" só deve ser adotado com linguagem inclusiva e cuidadosa, garantindo que não substitua a avaliação individualizada de cada criança, mas contribua para ampliar o acesso a recursos e serviços adequados.


Fonte: www.terra.com.br





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