Autismo e evolução: novas pesquisas ampliam o debate sobre o TEA

29/01/2026


Estudo científico propõe olhar o transtorno do espectro autista como neurodivergência ligada à seleção natural e ao ambiente


Estudo aponta o TEA como resultado da dinâmica evolutiva humana

Pesquisas recentes vêm questionando a visão tradicional do transtorno do espectro autista (TEA) apenas como patologia. Um estudo publicado no final de 2025 na revista científica Molecular, Biology and Evolution propõe compreender o TEA como uma forma de neurodivergência associada à própria evolução da espécie humana.

Segundo os autores, características relacionadas ao TEA podem ser resultado da atuação da seleção natural combinada com fatores epigenéticos — ou seja, influências do ambiente que alteram a forma como determinados genes se expressam. De forma simplificada, seria como se alguns genes fossem "ativados" ou "desativados" conforme as condições ambientais às quais o indivíduo é exposto.

Influência ambiental e aumento dos diagnósticos

Entre os fatores ambientais citados pela literatura científica estão os agrotóxicos sintéticos, especialmente os organofosforados, amplamente utilizados no Brasil, e os organoclorados, que apesar de proibidos, ainda permanecem no ambiente ou circulam de forma irregular. Estudos indicam que a exposição durante a gestação pode afetar diretamente a expressão genética dos bebês.

Esse contexto ajuda a explicar, ao menos em parte, o crescimento no número de diagnósticos de TEA. No Brasil, o Censo Demográfico de 2022 registrou 2,4 milhões de pessoas com TEA, o equivalente a 1,2% da população. Nos Estados Unidos, dados de 2022 apontam que 1 a cada 31 crianças de 8 anos foi identificada com a neurodivergência, aumento em relação a 2020. Já a Organização Mundial da Saúde estima que, globalmente, o TEA atinja 1 a cada 127 pessoas.

Ciência, políticas públicas e desinformação no debate sobre o autismo

Apesar de o estudo sugerir que o TEA possa ter um componente adaptativo da espécie — ao mesmo tempo em que gera dificuldades sociais e habilidades individuais marcantes —, especialistas reforçam que isso não elimina a necessidade de políticas públicas de inclusão e suporte.

O debate também esbarra em temas sensíveis, como a influência de interesses econômicos na divulgação científica e o avanço de movimentos negacionistas. Entre as informações falsas mais difundidas está a ideia de que "as vacinas causam autismo", afirmação amplamente refutada pela ciência. Episódios recentes, como surtos de sarampo no Brasil e nos Estados Unidos, reforçam os riscos da desinformação em saúde pública.

Diante do aumento dos diagnósticos e da ampliação do entendimento científico sobre o TEA, a discussão central passa a ser se a sociedade está preparada para promover inclusão real, combater o capacitismo e garantir que o debate seja guiado por evidências científicas, e não por interesses ou ideologias.



Fonte: diplomatique.org.br




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