A Falta de Atendimento Multidisciplinar Contínuo: Um Obstáculo para o Desenvolvimento de Pessoas Autistas

O cuidado adequado para pessoas no Transtorno do Espectro Autista (TEA) vai muito além de consultas ocasionais. Envolve um acompanhamento regular e integrado, com diferentes profissionais de saúde e educação atuando de forma complementar. No entanto, essa realidade ainda é distante para muitas famílias brasileiras.
Apesar de o Sistema Único de Saúde (SUS) prever a oferta de terapias essenciais — como fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e psicopedagogia —, na prática, esses serviços chegam de forma irregular, incompleta e, muitas vezes, com intervalos tão longos que comprometem o progresso do paciente.
A importância da abordagem multidisciplinar no TEA
O tratamento multidisciplinar contínuo é considerado pela comunidade científica e por especialistas em saúde a melhor forma de potencializar o desenvolvimento da pessoa autista. Cada especialidade contribui para áreas distintas: a fonoaudiologia estimula a comunicação; a terapia ocupacional trabalha habilidades motoras e autonomia; a psicologia atua no comportamento e nas emoções; e a psicopedagogia oferece suporte ao aprendizado.
Quando esses serviços acontecem de forma coordenada e frequente, os avanços são perceptíveis — desde melhora na interação social até maior independência nas atividades diárias. Porém, quando há falhas na frequência e integração, o efeito é oposto: habilidades conquistadas podem regredir, e novas competências demoram mais para se consolidar.
O cenário real no atendimento público
No papel, o SUS garante acesso a terapias multidisciplinares para pessoas com TEA. Na realidade, os recursos humanos e estruturais são limitados. Profissionais especializados não são suficientes para atender a demanda, e a rotatividade nas equipes compromete a continuidade.
É comum famílias relatarem que, após meses de espera, conseguem iniciar o tratamento, mas logo enfrentam interrupções: faltas de profissionais, trocas de horários, redução da carga de sessões e até suspensão temporária do serviço. Essa descontinuidade mina o progresso e frustra tanto os cuidadores quanto os pacientes.
Além disso, a falta de integração entre os diferentes profissionais dificulta um plano de cuidado unificado. Em muitos casos, o atendimento é fragmentado, sem troca de informações entre especialistas, o que impede a criação de estratégias personalizadas e eficientes.
Caminhos para garantir atendimento contínuo e de qualidade
Reduzir as falhas no atendimento multidisciplinar exige um conjunto de ações integradas. Investir na formação e contratação de mais profissionais especializados é o primeiro passo. Programas de incentivo para fixação de terapeutas em regiões carentes também podem ajudar a reduzir desigualdades.
Outro ponto crucial é melhorar a gestão dos serviços, criando protocolos que evitem interrupções e garantam que as terapias sejam realizadas com a frequência necessária. Ferramentas digitais podem auxiliar na coordenação das equipes e no acompanhamento do progresso de cada paciente.
Por fim, a participação ativa das famílias e de organizações como o Portal Azul é essencial. Ao cobrar políticas públicas, monitorar a qualidade do atendimento e oferecer orientação para os cuidadores, essas entidades fortalecem a rede de apoio e ajudam a transformar um direito previsto em lei em realidade efetiva.
Garantir o atendimento multidisciplinar contínuo não é apenas uma questão técnica — é um ato de respeito à dignidade e ao potencial de cada pessoa autista. Sem ele, o futuro de muitas famílias segue sendo construído sobre lacunas e incertezas.
Portal Azul - Informações: (61) 98678.4193 - WhatsApp (enviar mensagem)